Automutilação em adolescentes – A dor na pele
Atualmente a automutilação é caracterizada por qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. Em geral as lesões mais comuns são superficiais e se apresentam em formas de cortes, queimaduras, arranhões, mordidas, bater partes do corpo na parede ou em objetos. As áreas mais frequentemente atingidas são braços, pernas, peito e barriga, pois tem fácil acesso e mais fáceis de esconder as lesões (Giusti, 2013).
No DSM 5, descrevem que a característica essencial da autolesão não suicida é o comportamento repetido do próprio indivíduo de infligir lesões superficiais, embora dolorosas, à superfície do seu corpo. Em geral, o propósito é reduzir emoções negativas, como tensão, ansiedade e autocensura, e/ou resolver uma dificuldade interpessoal. Em alguns casos, a lesão é concebida como uma autopunição merecida. O indivíduo frequentemente relata uma sensação imediata de alívio que ocorre durante o processo (Giusti, 2013). A Organização Mundial de Saúde (OMS) inclui a autolesão no contexto da violência autoinfligida, correspondendo ao uso intencional de força física real ou de ameaça contra si próprio (Organização Mundial de Saúde, 2014).
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a faixa etária de 10 a 14 anos corresponde ao período da adolescência inicial. Esta faixa etária corresponde com a etapa de maior predominância do início autolesão, a saber, entre 11 e 15 anos (Garreto, 2015; Zetterqvist, 2015). Ao comparar estudos conduzidos em diferentes grupos etários, os adolescentes apresentam uma prevalência mais alta ao longo da vida do que os adultos (Garreto, 2015; Zetterqvist, 2015). Dados internacionais revelam que cerca de 10% dos adolescentes tiveram pelo menos um episódio de autolesão ao longo da sua vida (GUERREIRO; SAMPAIO; FIGUEIRA, 2014). Segundo algumas estimativas, 13% a 23% (Le Cloux, 2013) ou mais de 20% (Wilkinson, 2013) dos adolescentes se engajarão em atos de automutilação pelo menos uma vez em suas vidas, o que torna esse um problema comum para essa faixa etária. Entretanto, com relação ao índice da prevalência de automutilação entre jovens no Brasil, não foram encontrados estudos epidemiológicos sobre a incidência deste ato, mas pesquisas realizadas no exterior mostram o crescimento da prática nos últimos anos.
A autolesão em adolescentes é considerada o resultado final de complexas interações entre fatores genéticos, biológicos, psiquiátricos, psicológicos, sociais e culturais, tornando-se um relevante problema de saúde pública. Vários são os fatores de riscos, como, características da personalidade, transtornos psiquiátricos, problemas sociais, problemas familiares, uso de substâncias psicoativas, etc. (Cedaro, & Nascimento, 2013). Estes comportamentos apresentam elevada prevalência em amostras comunitárias e clínicas, e estão geralmente associados à morbidade psiquiátrica e a um aumento significativo do risco de suicídio consumado.
Foi estimado que 10% a 14% de adolescentes que se engajam em comportamentos de automutilação podem morrer por suicídio (Steele & Doey, 2007) e que mais de 70% de adolescentes que se automutilação sem intenção de se matar, podem tentar suicídio em algum momento, colocando adolescentes que cometem automutilação em grupos de risco para a ocorrência de tentativas e de consumação do suicídio (Jacobson & Gould, 2007; Wilskison, 2013). Comportamentos de automutilação podem servir como “portão de entrada” a comportamentos suicidas por meio da redução da inibição destes comportamentos e da habituação a lesões autoinfligidas (Whitlock, Muehlenkamp, Eckenrode, Purington, Abrams, Barreira, & Kress, 2013), corroborando com a teoria que propõe o suicídio como um resultado da habilidade aprendida em se machucar (Ougrin, Zundel, Kyriakopoulos, & Banarsee, 2012).
Na adolescência existe uma probabilidade aumentada em se envolver em comportamentos de risco. Os adolescentes gostam de intensidade, excitação e agitação. É um período do desenvolvimento em que o interesse pela aventura, predileção a riscos e o desejo por novidades e emoções atingem níveis elevados naturalmente. Como por exemplo, música alta, sexo, álcool, brinquedos que estimulam a adrenalina em parques de diversões e outras atividades de grande estimulação (Dahl, 2004).
A automutilação engloba um conjunto de ferimentos auto infligidos, sem intenção suicida consciente, resultando em danos nos tecidos do corpo (Gratz, 2006). A forma mais comum de automutilação consiste em cortar ou rasgar a pele. Outras formas de automutilação utilizadas são pontapear, provocar queimaduras e arranhar. As áreas atingidas caracterizam-se por serem facilmente ocultas, de modo que o comportamento passe despercebido, e incluem braços, coxas e região abdominal (Barbedo & Matos, 2009). O seu início típico ocorre na adolescência. Este comportamento é referido na literatura como sendo uma tentativa de lidar com emoções negativas, de algum modo inerentes ao período da adolescência: frustração, desvalorização, rejeição (cf. LayeGindhu & Schornert-Reichl, 2005; Matos & Sampaio, 2009). O provocar de uma dor física, definida, localizável, permite um alívio de emoções negativas, deslocando o foco de atenção do sofrimento e servindo as funções de estratégia de coping de regulação emocional (cf. Laye-Gindhu & Schornert-Reichl, 2005; Matos & Sampaio, 2009). A automutilação pode ser uma forma de autopunição, na qual o adolescente canaliza para si a raiva que sente. Embora sem envolver intenção suicida consciente, adolescentes que se automutilam estão em maior risco de cometerem suicídio. (cf. Skegg, 2005; Barbedo & Matos, 2009).
Em relação à gravidade da autolesão entre os adolescentes verificam-se presenças dos três níveis de autolesão (leve, moderada e grave). A ECA estabelece como níveis de gravidade a autolesão leve (mordeu a si mesmo e/ou fez vários arranhões em sua pele propositalmente); moderada (bateu em si mesmo propositalmente, arrancou seus cabelos, inseriu objetos embaixo de sua unha ou sob a pele, e/ou fez uma tatuagem em si mesmo intencionalmente); e grave (cortou ou fez vários pequenos cortes na sua pele, queimou sua pele e/ou beliscou ou cutucou áreas do seu corpo até sangrar intencionalmente) (Garreto, 2015).
Vários são os fatores de risco associados a automutilação. Geralmente, experiências traumáticas precedem e parecem contribuir para o desenvolvimento da automutilação. Conforme tabela abaixo.
Tabela 1 – Fatores de risco para automutilação
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Características Pessoais |
Pessimismo Insegurança Instabilidade emocional Impulsividade Baixa autoestima |
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Problemas relacionados à infância |
Abusos (sexual, físico, emocional) Negligência Dificuldade de apego |
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Social |
Amigos que se automutilam Dificuldade de relacionamento “Bullying” |
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Família |
Ausência ou separação precoce dos pais Violência familiar Depressão em algum dos pais Desvalorização por parte da família Dependência de álcool |
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Transtornos psiquiátricos |
Depressão Ansiedade Transtorno de personalidade Borderline Transtornos alimentares Transtornos de uso de substâncias Outros transtornos de personalidade |
Fonte: (Giusti, 2013)
Tratamento
No modelo da Terapia Cognitivo de Beck, temos uma abordagem terapêutica estruturada, diretiva, com metas claras e definidas, focalizada no presente. O principal objetivo é produzir mudanças nos pensamentos e nos sistemas de crenças dos pacientes, evocando uma transformação emocional e comportamental duradoura. Segundo Beck, não é a situação que determina o que as pessoas sentem, mas o modo como elas interpretam e pensam sobre os fatos em uma dada situação. Dessa forma, identificar crenças e pensamentos e, posteriormente modifica-los, é fundamental para o tratamento.
Na terapia cognitiva o que o paciente pensa sobre si, o outro e o mundo vai nortear suas regras de funcionamento e seus comportamentos (estratégias compensatórias). A automutilação funciona como uma estratégia compensatória para o pressuposto do tipo, se então. Como por exemplo: se eu não me cortar, não vou suportar viver. Nesse caso, a dor física é mais fácil de tolerar do que a dor emocional e, por sua vez, está conectado com uma crença central de desamor ou vulnerabilidade.
O trabalho com adolescentes com comportamentos de automutilação, pode exigir, antes do uso de técnicas, que o terapeuta questione e esteja presente e disponível, e ampare as ansiedades e angústias desse paciente. Muitas vezes, a maior demanda é a de uma escuta atenta, sem preconceitos ou julgamentos, trazendo acolhimento, contingência, cuidado e proteção (Kuczynski, 2014).
A primeira ação do terapeuta deve consistir em uma boa avaliação do estado mental do paciente, do risco que se encontra e principalmente da rede de apoio disponível. É de suma importância o envolvimento da rede de apoio na avaliação, manejo e prevenção de comportamentos de automutilação. A psicoeducação dos pais e cuidadores pode ser benéfico pois a maioria dos adolescentes vivem com suas famílias e esse pode ser um dos fatores desencadeadores desses comportamentos (Steele & Doey, 2007). É importante instrumentalizar a família com informações, contatos e procedimentos de emergência, assim como, um plano para crises. É importante que estejam treinados em soluções de problemas para ajudar a identificar sinais da possível ocorrência desses comportamentos, e ajudar o adolescente a passar por pensamentos de automutilação gerando novas alternativas. Para manter o adolescente em segurança, a cooperação dos pais é fundamental, bem como a compreensão da real gravidade da situação (Friedberg & McClure, 2002).
Na presença de comportamentos de automutilação, é importante avaliar direta e confortavelmente, de forma que qualquer ansiedade ou desconforto com o tópico não seja aparente e leve a evitação. O terapeuta deve fazer perguntas diretas sobre pensamentos, desejos e ações de se machucar ou morrer. É importante entender quais comportamentos estão presentes e qual a intenção ou função destes.
É possível chegar a um acordo com o paciente sobre não ter o comportamento disfuncional de ferir a si próprio antes de falar com o terapeuta. Escutar e conversar com o cliente ao telefone, empaticamente, em muitos casos, atenua a crise em 15 a 20 minutos. Ao longo do tratamento, o paciente vai internalizando essa nova atitude em relação a sentimentos desconfortáveis, e pode aplicar a si mesmo, sem necessitar com tanta frequência do auxílio de terceiros.
Outra intervenção é trabalhar com o adolescente a ideia de temporidade, onde projeções de tempo auxiliam o paciente que apresenta pouca esperança ou não consegue ver que as coisas podem mudar a longo tempo. Essa intervenção possibilita a ampliação da visão do adolescente sobre o futuro, prevendo como pensamentos, sentimentos e eventos podem estar diferentes em um mesmo dia, semana, mês ou ano situação (Friedberg & McClure, 2002).