Arquivos por ano 5 de novembro de 2019

Habilidades sociais na infância

Muitas vezes falamos sobre habilidades sociais, que podem e devem ser desenvolvidas na infância. Mas o que são habilidades sociais? Porque são importantes?

Para um bom relacionamento com outras crianças e adultos, as crianças precisam aprender habilidades sociais. Inicialmente a socialização é função dos pais e cuidadores, e em um segundo momento, essa responsabilidade é dividida com a escola. E o aprendizado das habilidades sociais auxilia nesse processo de socialização, pois são comportamentos que ocorrem na interação social e favorecem os relacionamentos saudáveis.

O termo habilidades sociais é atribuído a diferentes classes de comportamentos sociais do repertório de um indivíduo, que contribuem para a competência social.  Essa competência é denominada como a capacidade de articular pensamentos, sentimentos e ações em função de objetivos pessoais e de demandas da situação e da cultura, gerando consequências positivas para o indivíduo e para as demais pessoas por meio de um relacionamento saudável e produtivo (Del Prette & Del Prette, 2005).

Podemos pensar nas habilidades sociais como um programa de promoção de saúde e bem-estar, através de estratégias educativas e terapêuticas, pois ao serem desenvolvidas, o repertório de habilidades sociais será mais amplo, promovendo assim, novas aquisições. Melhorando a frequência, a fluência e a funcionalidade das habilidades sociais no repertório da criança.

Muitos estudos mostram que o desenvolvimento das habilidades sociais na infância contribui para um funcionamento adaptativo, onde contribui para a independência pessoal e responsabilidade social, contribui para relações mais harmoniosas entre colegas e adultos.

Consideramos ao trabalhar com as habilidades sociais sete classes de habilidades, são elas: habilidades de autocontrole e expressividade emocional;habilidades empáticas;habilidades de civilidade;habilidades assertivas;habilidades de fazer amizades;habilidades sociais acadêmicas;e habilidades de solução de problemas interpessoais.

Elas são interdependentes e complementares. Nenhuma dessas habilidades devem ser negligenciadas em treinamentos de desenvolvimento pessoal de caráter terapêutico ou educacional, pois contemplam as principais demandas interpessoais da infância.

A primeira habilidade que falaremos é a habilidade de autocontrole e expressividade emocional, que é quando a criança lida com suas emoções de forma adequada. Os comportamentos esperados para crianças que apresentam essa habilidade desenvolvida são, por exemplo: reconhecimento de suas emoções e de outras pessoas; expressar emoções positivas e negativas; controlar seu humor e lidar com seus sentimentos, de modo que consiga acalmar-se; tolerar frustação, entre outros.

A segunda são as habilidades empáticas, que é a capacidade de compreender e sentir o que o outro sente em uma situação, e verbalizar essa compreensão, de forma adequada. Ser empático é perceber o que é importante para outras pessoas, percebendo o que o outro está sentindo e se colocar nesse lugar. Exemplos de comportamentos esperados para essa habilidade: prestar atenção e ouvir os outros; oferecer ajuda; compartilhar o que é seu; expressar compreensão pelo sentimento e experiência dos outros; demonstrar respeito às diferenças, entre outros.

A terceira habilidade são as habilidades de civilidade, que são os comportamentos guiados pelas regras de relacionamento valorizadas em determinada cultura. Esses comportamentos são, por exemplo: expressar cortesia; usar locuções como: obrigado, por favor, me desculpe; fazer e aceitar elogios; aguardar a vez para falar; fazer e responder perguntas; cumprimentar pessoas, entre outros.

A quarta são as habilidades assertivas, é uma classe de habilidades sociais de enfrentamento, onde é necessário o controle da ansiedade e regulação da exposição de desejos, emoções e opiniões. A criança é assertiva quando ela consegue expressar o que está sentindo e pensando em uma determinada situação, sem ser passiva e controlando as reações de agressividade. Algumas das principais habilidades assertivas a serem aprendidas na infância: defender os próprios direitos; fazer e recusar pedidos; expressar sentimentos negativos de raiva e desagrado; concordar ou discordar de opiniões; resistir à pressão de colegas, entre outros.

A quinta são as habilidades de fazer amizades, uma habilidade que apresenta grande importância para o desenvolvimento sócio afetivo da criança. Espera-se para essa habilidade que a criança consiga, por exemplo, fazer perguntas pessoais; elogiar e aceitar elogios; sugerir atividades quando está em grupo; iniciar e manter conversas; cumprimentar e apresentar-se, entre outros.

A sexta habilidade são as habilidades sociais acadêmicas, que quando desenvolvidas tem relação positiva com o rendimento escolar. É esperado nessa habilidade que a criança seja capaz de: seguir regras ou instruções orais; tenha autocontrole e espere sua vez para falar; participação em discussões em sala de aula; imitar comportamentos socialmente competentes; observar e prestar atenção; orientar-se para a tarefa, ignorando interrupções de colegas, entre outros. 

A sétima e última habilidade são as habilidades de solução de problemas interpessoais, que é quando ocorre um desequilíbrio na relação, onde uma das partes se sente prejudicada pela ação da outra.

Nos primeiros anos de vida da criança é esperado que solicitem ajuda dos pais ou cuidadores para resolução de problemas pessoais. Conforme a criança se desenvolve, é esperado que seu repertório de habilidades seja ampliado, e ela consiga resolver os problemas sem ajuda ou apenas seja necessário para os mais complicados. Pesquisas mostram que o desenvolvimento dessas habilidades estão associadas a uma maior capacidade em lidar com fontes de estresse, na adolescência verifica-se uma melhora da competência social e a diminuição da impulsividade. É um fator protetor dos problemas de agressividade, violência e comportamentos antissociais.

Para a aquisição do repertório comportamental dessas habilidades sociais descritas, realiza-se grupos para treinamento de habilidades sociais, onde profissionais trabalham no grupo diferentes ferramentas que possibilitam a aquisição desse repertório. Entretanto, vale ressaltar que pais, cuidadores e escola, podem estimular a aquisição desse repertório em contextos naturais. O relacionamento entre pares e com os pais são fundamentais para aprendizagem e ampliação das habilidades sociais.

Automutilação em adolescentes – A dor na pele

Atualmente a automutilação é caracterizada por qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. Em geral as lesões mais comuns são superficiais e se apresentam em formas de cortes, queimaduras, arranhões, mordidas, bater partes do corpo na parede ou em objetos. As áreas mais frequentemente atingidas são braços, pernas, peito e barriga, pois tem fácil acesso e mais fáceis de esconder as lesões (Giusti, 2013). 

No DSM 5, descrevem que a característica essencial da autolesão não suicida é o comportamento repetido do próprio indivíduo de infligir lesões superficiais, embora dolorosas, à superfície do seu corpo. Em geral, o propósito é reduzir emoções negativas, como tensão, ansiedade e autocensura, e/ou resolver uma dificuldade interpessoal. Em alguns casos, a lesão é concebida como uma autopunição merecida. O indivíduo frequentemente relata uma sensação imediata de alívio que ocorre durante o processo (Giusti, 2013). A Organização Mundial de Saúde (OMS) inclui a autolesão no contexto da violência autoinfligida, correspondendo ao uso intencional de força física real ou de ameaça contra si próprio (Organização Mundial de Saúde, 2014).

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a faixa etária de 10 a 14 anos corresponde ao período da adolescência inicial. Esta faixa etária corresponde com a etapa de maior predominância do início autolesão, a saber, entre 11 e 15 anos (Garreto, 2015; Zetterqvist, 2015). Ao comparar estudos conduzidos em diferentes grupos etários, os adolescentes apresentam uma prevalência mais alta ao longo da vida do que os adultos (Garreto, 2015; Zetterqvist, 2015). Dados internacionais revelam que cerca de 10% dos adolescentes tiveram pelo menos um episódio de autolesão ao longo da sua vida (GUERREIRO; SAMPAIO; FIGUEIRA, 2014). Segundo algumas estimativas, 13% a 23% (Le Cloux, 2013) ou mais de 20% (Wilkinson, 2013) dos adolescentes se engajarão em atos de automutilação pelo menos uma vez em suas vidas, o que torna esse um problema comum para essa faixa etária. Entretanto, com relação ao índice da prevalência de automutilação entre jovens no Brasil, não foram encontrados estudos epidemiológicos sobre a incidência deste ato, mas pesquisas realizadas no exterior mostram o crescimento da prática nos últimos anos.

A autolesão em adolescentes é considerada o resultado final de complexas interações entre fatores genéticos, biológicos, psiquiátricos, psicológicos, sociais e culturais, tornando-se um relevante problema de saúde pública. Vários são os fatores de riscos, como, características da personalidade, transtornos psiquiátricos, problemas sociais, problemas familiares, uso de substâncias psicoativas, etc. (Cedaro, & Nascimento, 2013). Estes comportamentos apresentam elevada prevalência em amostras comunitárias e clínicas, e estão geralmente associados à morbidade psiquiátrica e a um aumento significativo do risco de suicídio consumado. 

Foi estimado que 10% a 14% de adolescentes que se engajam em comportamentos de automutilação podem morrer por suicídio (Steele & Doey, 2007) e que mais de 70% de adolescentes que se automutilação sem intenção de se matar, podem tentar suicídio em algum momento, colocando adolescentes que cometem automutilação em grupos de risco para a ocorrência de tentativas e de consumação do suicídio (Jacobson & Gould, 2007; Wilskison, 2013). Comportamentos de automutilação podem servir como “portão de entrada” a comportamentos suicidas por meio da redução da inibição destes comportamentos e da habituação a lesões autoinfligidas (Whitlock, Muehlenkamp, Eckenrode, Purington, Abrams, Barreira, & Kress, 2013), corroborando com a teoria que propõe o suicídio como um resultado da habilidade aprendida em se machucar (Ougrin, Zundel, Kyriakopoulos, & Banarsee, 2012). 

Na adolescência existe uma probabilidade aumentada em se envolver em comportamentos de risco. Os adolescentes gostam de intensidade, excitação e agitação. É um período do desenvolvimento em que o interesse pela aventura, predileção a riscos e o desejo por novidades e emoções atingem níveis elevados naturalmente. Como por exemplo, música alta, sexo, álcool, brinquedos que estimulam a adrenalina em parques de diversões e outras atividades de grande estimulação (Dahl, 2004). 

A automutilação engloba um conjunto de ferimentos auto infligidos, sem intenção suicida consciente, resultando em danos nos tecidos do corpo (Gratz, 2006). A forma mais comum de automutilação consiste em cortar ou rasgar a pele. Outras formas de automutilação utilizadas são pontapear, provocar queimaduras e arranhar. As áreas atingidas caracterizam-se por serem facilmente ocultas, de modo que o comportamento passe despercebido, e incluem braços, coxas e região abdominal (Barbedo & Matos, 2009). O seu início típico ocorre na adolescência. Este comportamento é referido na literatura como sendo uma tentativa de lidar com emoções negativas, de algum modo inerentes ao período da adolescência: frustração, desvalorização, rejeição (cf. LayeGindhu & Schornert-Reichl, 2005; Matos & Sampaio, 2009). O provocar de uma dor física, definida, localizável, permite um alívio de emoções negativas, deslocando o foco de atenção do sofrimento e servindo as funções de estratégia de coping de regulação emocional (cf. Laye-Gindhu & Schornert-Reichl, 2005; Matos & Sampaio, 2009). A automutilação pode ser uma forma de autopunição, na qual o adolescente canaliza para si a raiva que sente. Embora sem envolver intenção suicida consciente, adolescentes que se automutilam estão em maior risco de cometerem suicídio. (cf. Skegg, 2005; Barbedo & Matos, 2009).  

Em relação à gravidade da autolesão entre os adolescentes verificam-se presenças dos três níveis de autolesão (leve, moderada e grave). A ECA estabelece como níveis de gravidade a autolesão leve (mordeu a si mesmo e/ou fez vários arranhões em sua pele propositalmente); moderada (bateu em si mesmo propositalmente, arrancou seus cabelos, inseriu objetos embaixo de sua unha ou sob a pele, e/ou fez uma tatuagem em si mesmo intencionalmente); e grave (cortou ou fez vários pequenos cortes na sua pele, queimou sua pele e/ou beliscou ou cutucou áreas do seu corpo até sangrar intencionalmente) (Garreto, 2015).

Vários são os fatores de risco associados a automutilação. Geralmente, experiências traumáticas precedem e parecem contribuir para o desenvolvimento da automutilação. Conforme tabela abaixo. 

Tabela 1 – Fatores de risco para automutilação

           

 

 

Características Pessoais

Pessimismo

Insegurança

Instabilidade emocional

Impulsividade

Baixa autoestima

 

Problemas relacionados à infância

Abusos (sexual, físico, emocional)

Negligência

Dificuldade de apego

 

Social

Amigos que se automutilam

Dificuldade de relacionamento 

“Bullying”

 

Família

Ausência ou separação precoce dos pais

Violência familiar

Depressão em algum dos pais

Desvalorização por parte da família

Dependência de álcool 

Transtornos psiquiátricos

Depressão

Ansiedade

Transtorno de personalidade Borderline

Transtornos alimentares

Transtornos de uso de substâncias

Outros transtornos de personalidade

Fonte: (Giusti, 2013)

Tratamento 

No modelo da Terapia Cognitivo de Beck, temos uma abordagem terapêutica estruturada, diretiva, com metas claras e definidas, focalizada no presente. O principal objetivo é produzir mudanças nos pensamentos e nos sistemas de crenças dos pacientes, evocando uma transformação emocional e comportamental duradoura. Segundo Beck, não é a situação que determina o que as pessoas sentem, mas o modo como elas interpretam e pensam sobre os fatos em uma dada situação. Dessa forma, identificar crenças e pensamentos e, posteriormente modifica-los, é fundamental para o tratamento. 

Na terapia cognitiva o que o paciente pensa sobre si, o outro e o mundo vai nortear suas regras de funcionamento e seus comportamentos (estratégias compensatórias). A automutilação funciona como uma estratégia compensatória para o pressuposto do tipo, se então. Como por exemplo: se eu não me cortar, não vou suportar viver. Nesse caso, a dor física é mais fácil de tolerar do que a dor emocional e, por sua vez, está conectado com uma crença central de desamor ou vulnerabilidade. 

O trabalho com adolescentes com comportamentos de automutilação, pode exigir, antes do uso de técnicas, que o terapeuta questione e esteja presente e disponível, e ampare as ansiedades e angústias desse paciente. Muitas vezes, a maior demanda é a de uma escuta atenta, sem preconceitos ou julgamentos, trazendo acolhimento, contingência, cuidado e proteção (Kuczynski, 2014). 

A primeira ação do terapeuta deve consistir em uma boa avaliação do estado mental do paciente, do risco que se encontra e principalmente da rede de apoio disponível. É de suma importância o envolvimento da rede de apoio na avaliação, manejo e prevenção de comportamentos de automutilação. A psicoeducação dos pais e cuidadores pode ser benéfico pois a maioria dos adolescentes vivem com suas famílias e esse pode ser um dos fatores desencadeadores desses comportamentos (Steele & Doey, 2007). É importante instrumentalizar a família com informações, contatos e procedimentos de emergência, assim como, um plano para crises. É importante que estejam treinados em soluções de problemas para ajudar a identificar sinais da possível ocorrência desses comportamentos, e ajudar o adolescente a passar por pensamentos de automutilação gerando novas alternativas. Para manter o adolescente em segurança, a cooperação dos pais é fundamental, bem como a compreensão da real gravidade da situação (Friedberg & McClure, 2002).

Na presença de comportamentos de automutilação, é importante avaliar direta e confortavelmente, de forma que qualquer ansiedade ou desconforto com o tópico não seja aparente e leve a evitação. O terapeuta deve fazer perguntas diretas sobre pensamentos, desejos e ações de se machucar ou morrer. É importante entender quais comportamentos estão presentes e qual a intenção ou função destes. 

É possível chegar a um acordo com o paciente sobre não ter o comportamento disfuncional de ferir a si próprio antes de falar com o terapeuta. Escutar e conversar com o cliente ao telefone, empaticamente, em muitos casos, atenua a crise em 15 a 20 minutos. Ao longo do tratamento, o paciente vai internalizando essa nova atitude em relação a sentimentos desconfortáveis, e pode aplicar a si mesmo, sem necessitar com tanta frequência do auxílio de terceiros. 

Outra intervenção é trabalhar com o adolescente a ideia de temporidade, onde projeções de tempo auxiliam o paciente que apresenta pouca esperança ou não consegue ver que as coisas podem mudar a longo tempo. Essa intervenção possibilita a ampliação da visão do adolescente sobre o futuro, prevendo como pensamentos, sentimentos e eventos podem estar diferentes em um mesmo dia, semana, mês ou ano situação (Friedberg & McClure, 2002).